Como nasceu a U.L.T.I.?

 

«Conta aquilo que Deus fez por ti» (Lc. 8, 39).

Inspirada no amor de Cristo compadecido pela situação dramática em que, naquela altura, viviam muitos idosos, alguém teve o feliz dom de sonhar com a realização de uma obra que fosse capaz  de os acolher, arrancando-os à solidão, à marginalização e evitar o desenraizamento familiar que se dava quando eles eram internados em lares de 3º idade, com fins lucrativos e sem condições humanas.

Como visitadora de lares de 3º idade, na área da minha paróquia, observei cenas altamente chocantes passadas com pessoas idosas que aí jaziam nas chamadas “antecâmaras da morte”.

Certa noite, em sonho, vi um lindo jardim florido e muito arborizado, no meio do qual se situava um edifício em degradação. As paredes estavam cobertas de heras verdejantes que brotavam e se entrelaçavam umas nas outras.

À volta desse edifício havia um número incontável de pessoas idosas que, alegremente, de braços levantados, entoavam cânticos de louvor e de glória a Deus.

Acordei e fiquei pensativa. Que significava isto? Achei que o sonho era lindo e, de repente, lembrei-me da real situação dos idosos que visitava. Entrei em oração e pedi discernimento. Compreendi que Deus queria que se fizesse alguma coisa para libertar os idosos daquele sofrimento. Logo me surgiu a ideia de criar uma instituição que promovesse a saúde  e prevenisse  a doença, mantendo os  idosos ocupados em tarefas que lhes proporcionassem bem-estar e lhes facilitassem convívio fraterno sem, contudo, os afastar  do seu ambiente familiar. Foi um sonho lindo, mas difícil de concretizar.

No entanto, como escreveu Fernando Pessoa : “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Pois, assim nasceu a ULTI.

Estava tudo esclarecido. A imagem  visualizada no sonho fixou-se na minha mente e no meu coração de tal modo que nunca mais se apagou .

O problema, agora, era saber o que fazer: como e por onde começar? Com que meios poderia contar? Como fazer as pessoas acreditar na concretização de um  projecto, baseado no sonho?

Estes pensamentos e mil e uma interrogações povoaram, durante muito tempo, a minha cabeça.

No entanto, Deus estava por trás disso tudo. A ideia foi-se delineando na minha mente e tomando forma e, como uma sementinha caída em terra árida, demorou a germinar, mas acabou por nascer.

Cheia de coragem, em 1985, abordei um sacerdote a quem expus o projecto que trazia  em gestação dentro da minha alma, e pedi-lhe ajuda espiritual e discernimento. Ele achou a ideia linda, e perguntou-me:

-Tu estás verdadeiramente apaixonada pelos velhinhos? - Eu respondi: - Talvez eu não esteja, mas Jesus está de certeza. Então, ele prometeu-me que ia rezar nesse sentido e que depois me diria alguma coisa. Esperei durante um ano, mas ele nunca mais me disse nada. Em 1986 a ideia ardia dentro de mim como uma chama imensa ateada em todo o meu ser. Chegara o momento. Eu não podia esperar mais  tempo.

Depois de muita penitência e oração, resolvi falar do assunto a uma colega,  na esperança de que ela me  pudesse ajudar. Ela riu-se a “bandeiras despregadas”, e disse:

- Tu és louca!... és uma “sonhadora”, mas eu não acredito em sonhos, por isso,  toma juízo.

- Fiquei desolada , mas não perdi a fé. Continuei rezando e insistindo com ela. Foram precisos alguns meses para que ela compreendesse que eu não estava brincando, e aceitasse o meu convite para me ajudar no lançamento do referido projecto. Entretanto, convidei outra colega que, por sua vez, mais tarde, trouxe consigo um amigo.

Em 25 de Janeiro de 1986, reuni, pela primeira vez, com as ditas colegas, e a ordem  de trabalho foi a seguinte:

1 -  Exposição clara do projecto, tal como ele surgira no meu coração.

2 - Convite para me ajudarem a realizá-lo

3 - Compromisso de honra sob juramento, no caso de  aceitarem a minha proposta

4 - Visita ao palácio Flor da Murta, em Paço de Arcos, onde previa que pudéssemos instalar a nossa obra

5 – Lanche

6 – Oração de despedida.

Nesta reunião, depois de aceite a minha proposta, assumiu-se o compromisso de honra de dispormos das tardes de sábado para: a) reuniões, b) contactos a efectuar no sentido de adquirir instalações próprias, c) realização progressiva de tudo o que o Senhor, em oração, nos fosse sugerindo.

Empenhadas em levar por diante o compromisso assumido nesta reunião, em nome de Jesus, as minhas queridas amigas e colegas de faculdade, Drª : Emília Noronha e Drª Aurea de Castro trouxeram consigo - a primeira, o marido, Dr. João Noronha; a segunda, o primo, Dr. Vitor Gonçalves. Deste modo, com cinco elementos, ficou constituído o grupo fundador da Ulti.

Não posso deixar de lembrar aqui, com a maior gratidão, todos aqueles que se foram juntando a nós para nos ajudarem e para darem continuidade ao nosso projecto. Pois as pessoas passam, mas as obras ficam. Não é possível fazer referência pessoal nem transcrever todos os nomes, porque muitos foram, e por receio de, involuntariamente, poder esquecer alguém. Na verdade, todos foram muito importantes para vencer a longa batalha que foi preciso travar.

No sentido de obtermos instalações próprias tivemos várias reuniões com o presidente da Câmara de Oeiras, C. M. De Lisboa, Santa Casa da Misericórdia, Juntas de Freguesia, entidades particulares, etc. Porém, muitas promessas, mas até hoje ninguém nos concedeu nada. Se não fosse a Igreja a abrir-nos as portas, a nossa obra não seria possível. Cansados de caminhar em vão, de um lado para o outro, um dia dirigimo-nos à Igreja de S. Domingos de Benfica.

O seu Pároco que, nessa altura, era o Senhor Padre Carlos dos Santos, escutou-nos e acolheu-nos com grande delicadeza e simpatia. Cedeu-nos, a título provisório e gratuitamente, o Centro Paroquial, para aí  fazermos uma experiência piloto. Assim, a 14 de Março de 1987, a ULTI, naquela altura, ainda com o nome de “Instituto Superior para a Terceira Idade”, abriu as suas portas ao público. A dita  experiência foi um sucesso. A população aderiu em massa ao nosso projecto logo no primeiro ano, tanto a nível dos alunos como dos professores que logo se disponibilizaram para leccionar gratuitamente. Por isso, era preciso continuar, pois havia um longo caminho a percorrer para legalizar e consolidar o projecto iniciado. Para tal, foi necessário organizarmo-nos em associação. Felizmente, um dos fundadores,  que é  advogado, elaborou os Estatutos e, em 7 de Novembro de 1988, foi assinada a escritura da “ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DA TERCEIRA IDADE” – AATI,.  A partir desta data a ULTI  foi reconhecida como estabelecimento de ensino voluntário e gratuito, sem fins curriculares.

A nossa Instituição pretende ser, sobretudo, um lugar de encontro, de convívio e partilha fraterna, troca de experiências, de conhecimentos, e de solidariedade entre os idosos. A Associação esforça-se por criar condições para que todos se sintam acolhidos, amados e respeitados.

Está situada no Centro Paroquial da Igreja de S. Domingos de Benfica, em Lisboa,  onde iniciou funções e onde continua até hoje, gozando da simpatia  e estreita colaboração do seu Pároco, reverendo Padre Fernando Ferreira, bem como da sua Comunidade Paroquial. A secção das artes funciona no Centro de Dia de N. Senhora do Rosário que nos foi também cedido pela Igreja de S. Domingos de Benfica, bem como o ginásio.

Actualmente, dispõe já de sede própria, na Rua de S. Domingos de Benfica, n.º 8, cave esquerda, adquirida com os fracos recursos de que dispomos.

A sua frequência anual ronda uma média de 750 alunos e professores porque, infelizmente, não temos espaço para mais. Todos os anos nos vemos  forçados a dizer  não a muita gente, com muita pena nossa, por não podermos acolher todos os que nos procuram.

Por falta de espaço, as aulas de Teologia são ministradas na Igreja  de S. Sebastião da Pedreira, pelo reverendo Padre Cordeiro. Continuamos a lutar pela aquisição de instalações próprias e condignas que nos permitam dar à nossa obra a projecção prevista no sonho. Neste momento, temos a promessa da Câmara Municipal de Lisboa de nos ceder três lotes sitos num prédio ainda em construção, em Campolide. Estamos aguardando ansiosamente a realização da cedência desse espaço, crentes de que ainda este ano lectivo, de 2000/2001, possamos alargar as fronteiras do reduzido espaço que possuímos.

Os nossos objectivos  são:

1 – Evitar a solidão, a marginalização, o desenraizamento familiar e, consequentemente, promover a saúde, prevenindo a doença.

2 – Incentivar e desenvolver as potencialidades intelectuais, morais e espirituais dos idosos, aproveitando das suas riquíssimas experiências e canalizá-las em proveito das gerações mais novas.

3 – Promover a investigação científica da Gerontologia e da Gereatria

4 – Estabelecer intercâmbio cultural e científico a nível nacional e internacional através de acções que promovam a solidariedade entre gerações.

5 – Valorizar iniciativas de actuação participativa na vida comunitária, aproveitando do saber e da disponibilidade dos idosos.

 

Na prossecução destes objectivos, a ULTI lecciona diversos cursos, como podem ver no nosso plano de estudos.

Actualmente beneficia de um corpo docente de  professores que leccionam em regime de voluntariado, não recebendo qualquer recompensa, para além do grato prazer de praticar o Bem e de se sentirem úteis à comunidade.

Tudo isto é já uma realidade adquirida, e os utentes colaboram com enorme alegria, gozando de boa saúde e de uma profícua troca de experiências e de amizade.

Contudo, os objectivos da Associação dos Amigos da Terceira Idade  não se esgotam na Universidade. No topo da carreira universitária, uma nova etapa espera os nossos veteranos na “Comunidade de N. Senhora do Espírito Santo” que desde já se encontra ao seu dispor.

Esta Comunidade ainda não possui estatutos próprios, mas integra-se na Associação. Começou com um pequeno grupo de utentes que, orientados pela Direcção, se reuniam uma vez por mês, para rezar pelas intenções da Associação e pelo êxito da ULTI. Mais tarde, passou a reunir uma vez por semana. Depois, em 13 de Outubro de 1991, foi  consagrada a N. Senhora, com o nome  de “Comunidade de N. Senhora do Espírito Santo”, em eucaristia solene, celebrada pelo Prior, reverendo Padre Carlos dos Santos  (nosso saudoso e querido amigo, já falecido) e concelebrada pelo reverendo padre, doutor, Álvaro do Nascimento Terreiro e pelo reverendo Padre Rogério de Sousa. No fim da missa foi benzido um quadro de N. Senhora do Esp. Santo e entregue à dita Comunidade  que o mandara pintar em honra de N. Senhora com objectivo de A nomear sua Padroeira. A autora deste quadro é a  marquesa das casas de Fronteira e Alorna, Dr.ª Mafalda de Mascarenhas.

O nosso projecto prevê a possibilidade de vir a criar um lar residencial para esta Comunidade evangelizadora, bem como uma biblioteca condigna, logo que tenhamos espaço próprio para isso. Lamentamos que esta Comunidade não tenha tido a adesão que nós esperávamos. Neste momento, apenas um pequeno grupo de 30 a 40 pessoas, em média, frequenta as reuniões semanais. Futuramente a dita Comunidade será aquilo que Deus quiser, muito embora tenha sido concebida com o objectivo de ajudar aqueles que procuram, essencialmente, valores transcendentais.

 

Quarta-feira, 26 de Julho de 2000

 

Laura Maria Gomes Ferreira

(Sócia Fundadora n.º 1)